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Chamo-me Sebastião Barata e resido em Lisboa. Tenho 79 anos e leio desde muito novo. Uso a minha grande biblioteca para fazer vídeos e áudios que divulgo nas minhas redes sociais. Sigam-me!

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Comentário ao livro “Mau Agoiro” de Günter Grass

“Mau Agoiro” é um romance que Günter Grass escreveu quando estava a entrar na chamada terceira idade, pois foi publicado quando ele tinha 65 anos de idade. Foi um dos últimos que escreveu antes de vencer o Prémio Nobel de Literatura de 1999, o ano seguinte àquele em que o galardoado foi José Saramago, de quem se tornou amigo. Certamente a velhice já começava a preocupá-lo, embora tivesse vivido ainda mais cerca de 20 anos após escrever este livro.

Se falo nisto, é porque os protagonistas do romance são um casal de viúvos, ele alemão e ela polaca, que se encontram por acaso no Dia de Finados, quando compravam flores para pôr na campa das respetivas caras-metades. Podemos dizer que foi o destino que os uniu: a partir desse dia, não mais deixaram de conviver, amadureceram a ideia de criar um negócio invulgar, uma ideia que ainda ninguém tinha tido, criaram esse negócio que foi um estrondoso sucesso e acabaram por casar lá para o final do livro.

 

Esse negócio tão especial consistia em criar condições para que os expatriados da Polónia e países limítrofes, mais exatamente a Lituânia e a Bielorrússia, pudessem regressar ao seu país de origem e aí morrer e ser sepultados. Foi a altura da queda do muro de Berlim e da reunificação da Alemanha, a URSS estava a desfazer-se e a Polónia desejava aderir à União Europeia. Havia muitos (e de outros países ocidentais) que foram emigrantes em países do Báltico, lá tiveram os seus negócios e lá morreram, cujos descendentes se tinham refugiado em países do Ocidente, fugidos do regime comunista, por alturas da sua implantação na Rússia e outros países que vieram a fazer parte do Bloco Soviético. Tudo era favorável à satisfação do seu desejo de voltar a esses países, lá morrer e ser sepultados como os seus antepassados.

O negócio cresceu de tal forma e rendeu tanto dinheiro que se transformou num conglomerado de empresas que envolvia os cemitérios, mas também lares de idosos, campos de golfe, hotéis, bancos, empresas de transportes, enfim tudo o que girava à volta dos idosos, dos seus funerais e dos familiares que se deslocavam do Ocidente para os acompanhar nos seus últimos tempos de vida. Ganhou conotação política e saiu da capacidade de controlo dos seus fundadores que acabaram por deixar a empresa, desiludidos e maltratados.

Porquê o título de “Mau Agoiro”? Penso que por várias razões, a começar por ser um negócio sofisticado de “cangalheiros”, profissão a que há quem chame os “gatos pingados”; depois porque usava os idosos para criar um turismo da morte, o que repugnava e era mal visto por muitos. Mas havia uma razão bem mais pessoal dos protagonistas.

Alexander e Alexandra, assim se chamavam eles, tinham o sonho que visitar a Itália na sua lua de mel. Alexandra era restauradora de dourados de igrejas e outras obras antigas e o seu sonho era não morrer sem visitar a Itália, especialmente Roma e Nápoles, para admirar as maravilhosas obras de talha dourada das suas catedrais, e dizia que, depois de satisfazer tal desejo, já morreria feliz. Será que tais palavras eram agoirentas ao ponto de lhe causarem a morte? É que, de facto, eles foram de carro para Itália e visitaram as referidas cidades. Terão regressado e vivido uma velhice feliz em comum? Ou não?

Para terminar, ainda um pormenor: Grass tinha formação em Belas-Artes e a sua profissão era escultor; adorava desenhar e este livro tem desenhos seus de sapos a separar os capítulos. O sapo é considerado um animal agoirento. E, já que falo nisto, sabem que as ilustrações do livro póstumo de José Saramago “Alabardas, Alabardas, Espingardas, Espingardas” foi ilustrado por Günter Grass em homenagem ao amigo?

“Mau Agoiro” é um livro cheio de ironia, que satiriza o milagre económico da reconstrução da Alemanha no pós-guerra, a forma como aconteceu a reunificação das duas Alemanhas e as consequências da descompressão causada na Polónia com a queda da URSS. É muito agradável de ler e estimulante para a imaginação do leitor.

 

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