
O raturso estava calmamente a espreguiçar-se, após uns largos meses de hibernação, quando se lembrou de que tinha fome. Na verdade, há seis meses que não comia… Saiu da toca e começou a farejar caça. O dia estava lindo. Uma moscardáguia voava imponente no céu, de olho alerta. O pardalgataranha construía calmamente a sua teia, enquanto se segurava a um ramo com as garras das patas traseiras. O alçavestruz e o cangurubu pastavam calmamente na pradaria. O perugalinholesma arrastava-se sobre a relva, deixando um rasto viscoso, enquanto debicava umas sementes aqui, uns insetos ali. A serpentimpala rastejava e as pontas das suas compridas hastes apareciam sobre a erva alta.
O raturso tentou apanhar uma minhocanaconda, mas esta fugiu no momento certo. Viu então uma focatigre secando ao sol, estendida sobre uma pedra. Sorrateiramente, aproximou-se e, no momento oportuno, lançou-se sobre a presa. Mas esta era muito maior do que ele e foi fácil desenvencilhar-se. Ao raturso nada mais restou do que fugir a sete pés e esconder-se na toca mais próxima. Tentou descansar, mas foi “sombra de pouca dura”, porque logo foi corrido à marrada por um girafafurão. Outra vez no exterior, fugiu o mais que pôde e foi esconder-se na pradaria. Tentou alimentar-se, mas só encontrava formigabelhagrilos e escaravelhovespas, que, além de serem pequenos, fugiam e saltavam com grande agilidade. Á falta de melhor, tentou caçar os que pôde, mas exigia correr e saltar atrás deles. Ao aterrar de um desses saltos, caiu literalmente em cima dos chifres de uma bufaliena, que lhe deixaram um rasgão na pele e, ainda por cima, o bicho cheirava mal que se fartava.
O pobre do raturso continuou a fugir, até que se encontrou nas margens de um pequeno lago. Bebeu um pouco de água e deitou-se a descansar. Reparou então que o lago estava cheio de trutachigãbarbos, cachuchocos, atumarucas e outros peixes. Lembrou-se de que gostava muito de peixe, mas tinha medo de água. A fome era negra e lá tentou ver se conseguia pescar alguma coisa. Estava muito concentrado na sua pesca e não deu pela aproximação de um crocodilobo, que se movia lentamente à tona da água, só com as orelhas de fora. No momento em que o raturso acabava de filar uma ruivosardinha, cor de camarão às riscas prateadas, o crocodilobo abriu as suas mandíbulas mortíferas e tentou apanhar a perna que aquele ainda tinha dentro de água. Por sorte, saiu da água mesmo a tempo, com a sua presa na boca e nem deu conta do perigo que correu.
O crocodilobo sentiu-se frustrado, mas não desanimou, porque logo viu uma pombarracuda, que nadava despreocupadamente. Tentou caçá-la, mas esta não estava tão distraída como parecia e voou rapidamente para fora de água. Mas parece que não era o seu dia de sorte, porque logo foi caçada pela moscardáguia, que parecia estar mesmo à sua espera.
Quanto ao raturso, depois de saborear a sua ruivosardinha, estendeu-se ao sol, consolado. Foi então que lhe saltou em cima o galinholeão, que lhe chamou um “figo”.
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