
“O Físico Prodigioso”, de Jorge de Sena, é uma obra singular que desafia as convenções do romance histórico português ao misturar elementos fantásticos, filosóficos e mitológicos. Novela publicada originalmente em 1977, foi a única das duas obras de ficção média e longa publicada em vida do autor. Para além dela, só foram publicadas em vida as coletâneas de contos “Andanças do Demónio” (1960), “Novas Andanças do Demónio” (1966) e “Os Grão-Capitães” (1976).
O livro transporta o leitor para a época medieval, acompanhando a trajetória de um médico dotado de poderes extraordinários, cuja existência oscila entre o real e o sobrenatural. O protagonista é um cavaleiro que aparece junto ao castelo cujo senhor morreu nas cruzadas na Terra Santa e onde a sua viúva está à beira da morte. Os dois médicos que a tratam já perderam toda a esperança de a salvar. O cavaleiro utiliza os seus poderes e ela não só se cura, como adquire a sua juventude há muito perdida. Os médicos e o capelão desconfiam da origem dos seus poderes, mas toda a corte fica maravilhada e o “físico prodigioso” é aclamado e torna-se amante da dona do castelo que salvou. Uma coisa, no entanto, ele estranha: porque naquele castelo só há mulheres? O que aconteceu aos homens? E os prodígios do “físico” continuam a manifestar-se até que a Inquisição aparece e tudo vai acabar mal, depois de um longo e ridículo processo, típico daquela Santa Instituição…
Sena utiliza uma linguagem rica e irónica, explorando temas como o poder, a ciência, a fé e a condição humana, num contexto onde o racional e o mágico se entrelaçam. O protagonista, com uma personalidade ambígua, simboliza o confronto entre o progresso científico e as tradições enraizadas, sendo o romance uma metáfora da própria inquietação intelectual de Jorge de Sena.
Um pormenor que torna a narrativa completamente inovadora é que Jorge de Sena simula a forma de escrever dos cronistas dos séculos XIV e XV, bem como a dos poetas provençais e seus continuadores, entre os quais o nosso rei D. Dinis, inserindo no texto cantigas de amigo ou cantigas de escárnio e maldizer originais, de sua autoria.
A narrativa, cheia de referências culturais e literárias, convida à reflexão sobre os limites do conhecimento e da moralidade, ao mesmo tempo que critica, de forma subtil, o dogmatismo e a intolerância.
O autor revela, através desta obra, o seu domínio estilístico e a sua capacidade de criar atmosferas densas e provocadoras, tornando “O Físico Prodigioso” uma leitura indispensável para quem aprecia literatura de questionamento e profundidade. Em suma, trata-se de um livro que transcende géneros, abordando questões universais e intemporais, e que permanece relevante pela sua ousadia formal e pelo vigor do pensamento crítico. “O Físico Prodigioso” confirma Jorge de Sena como um dos grandes renovadores da literatura portuguesa do século XX.
Leave a Reply