
“O Judeu” é uma peça de teatro em 3 atos escrita por Bernardo Santareno e publicada em 1966. Para perceber bem a obra, nada como fazer uma breve resenha sobre a vida daquele que está na base do título, António José da Silva, um autor de comédias e óperas do século XVIII, mais conhecido como “O Judeu”.faz
António José da Silva nasceu no Rio de Janeiro em 1705, filho de cristãos-novos, designação que se atribuía aos judeus convertidos ao catolicismo; foi batizado, mas foi também circuncidado secretamente pela família. Em 1712, houve no Brasil uma grande perseguição aos cristãos-novos; a sua mãe, Lourença Coutinho, foi acusada de judaísmo e deportada para Portugal, onde foi processada pela Inquisição. O pai de António, advogado e também poeta, decidiu partir para Portugal, para estar próximo da sua mulher, levando o jovem António consigo, e a família instalou-se em Lisboa. Lourença abjurou no auto de fé e foi libertada.
Em 1725, o jovem António foi estudar direito na Universidade de Coimbra, onde se começou a interessar pela dramaturgia. Escreveu uma sátira, que serviu de pretexto às autoridades para o prenderem em 1926, juntamente com a sua mãe, e acusados de práticas judaizantes. Foi torturado pela Inquisição, tendo ficado parcialmente inválido durante algumas semanas, o que o impediu de assinar a sua “reconciliação” com a Igreja Católica, acabando por fazê-lo no grande auto-de-fé de 23 de outubro. Depois de ter abjurado, foi posto em liberdade, mas com a condição de usar o “sambenito” amarelo, o vestuário dos penitentes reconciliados, durante seis meses. Voltou para Coimbra, onde os colegas o gozavam por andar assim vestido. A sua mãe só foi libertada três anos mais tarde, em outubro de 1729, depois de ter sido torturada e figurado como penitente noutro auto-da-fé.
Depois de concluir o curso em 1728, António José exerceu advocacia em Lisboa durante três anos. Casou com Leonor Maria de Carvalho, sua prima e também judia, e retomou a atividade literária. As suas comédias e óperas eram representadas no teatro do Bairro Alto, sendo muito apreciadas, e rapidamente se tornou no maior dramaturgo português da sua época. O povo aplaudia entusiasticamente as suas piadas, gritando carinhosamente “judeu, judeu, judeu!”, apelido que lhe ficou colado para sempre.
Mas as sátiras em que criticava num modo burlesco o ridículo da sociedade portuguesa incomodavam a nobreza e o clero, acabando por ser denunciado ao Santo Ofício como suspeito de judaísmo. Foi preso de novo em 1737, em Lisboa, juntamente com a esposa, Leonor, que se encontrava grávida, a mãe que era presa pela terceira vez, e outros familiares. Apesar dos pedidos de clemência de muita gente importante, morreu no dia 19 de outubro de 1739 na fogueira, às mãos da Inquisição, num auto de fé.
A vida de António José da Silva (o Judeu), especialmente o processo de que foi vítima e o levou à morte, constitui a espinha dorsal desta peça de Bernardo Santareno.
Naquele tempo, enquanto na Europa se desenvolviam o Iluminismo e o racionalismo, em Portugal faziam-se autos de fé que não eram mais do que o emblema da triste ignorância e do consequente fanatismo do povo, que assistia aos autos de fé como a um espetáculo. A peça começa com um desses autos, mostrando como era feita a encenação festiva e espetacular, nomeadamente através do sermão manipulatório do padre pregador, que ocupa a maior parte do 1º ato.
Este Portugal obscurantista onde reinava a intolerância, a manipulação e a perseguição é invetivado por uma personagem com a função de narrador e comentador – o Cavaleiro de Oliveira – que faz a ligação entre cenas ao longo dos três atos da peça. O Cavaleiro de Oliveira foi um escritor português de espírito jocoso e sarcástico que se refugiou em Londres para fugir à Inquisição. Esta personagem estabelece também a ligação entre o palco e o público, chegando a dirigir-se diretamente aos espetadores do século XX, que ele espera livres de perseguições e dignificados por uma vida melhor e mais esclarecida. Claro que é uma forma irónica de falar, numa altura em que Portugal vivia a ditadura do Estado Novo e a PIDE era omnipresente e perseguia os dissidentes, como Bernardo Santareno. Esta sinistra polícia está representada na peça pela personagem do ‘Estudante Pálido’, a sombra constante de António José, que se vê subir na hierarquia do Santo Ofício à medida que os anos passam.
Na linha de Brecht, o processo de escrita de Bernardo Santareno – assim como os jogos de luz e sombra, e o recurso a gravações e a projeções – destina-se a abanar as consciências do público, que é chamado a intervir na ação e a notar a sinistra proximidade entre os valores e as crenças do auditório dos autos de fé e os da época em que a peça foi escrita. Santareno faz um paralelismo tão perfeito entre o massacre e a perseguição ao “Judeu” com o que se passava em Portugal sob a ditadura de Salazar, que basta imaginarmos uma troca de cenário para sentirmos os métodos da Inquisição na peça a serem praticados pelos agentes da PIDE.
No final da peça, depois da imolação de António José pelo fogo, antes de abandonar o palco, Cavaleiro de Oliveira grita «Iluminai o Povo de Portugal!», querendo com isso salientar que só um povo esclarecido será capaz de combater e negar as atrocidades presenciadas no palco. É esta preocupação didática que a peça procura cumprir. E é por isso que a considero sempre atual e recomendo a sua leitura atenta, pela denúncia e pelo alerta que deixa às pessoas do nosso e de todos os tempos para os perigos das ditaduras, venham elas de onde vierem e tenham a cor que tiverem.
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