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Chamo-me Sebastião Barata e resido em Lisboa. Tenho 79 anos e leio desde muito novo. Uso a minha grande biblioteca para fazer vídeos e áudios que divulgo nas minhas redes sociais. Sigam-me!

O romance distópico de Anthony Burgess “A Laranja Mecânica” (“A Clockwork Orange” no original), publicado em 1962, é considerado a sua obra-prima. Foi inspirado num incidente durante o Blitz de Londres da Segunda Guerra Mundial, em que a sua esposa Lynne foi assaltada, agredida e violada por desertores do Exército dos EUA em Londres durante o apagão, de que pode ter resultado o seu aborto espontâneo subsequente.

O livro é um exame do livre-arbítrio e da moralidade. O jovem anti-herói, Alex, capturado após uma curta carreira de violência e caos, passa por um tratamento de terapia de aversão para conter as suas tendências violentas. Esse tratamento resulta em torná-lo indefeso perante os outros e incapaz de desfrutar das suas músicas favoritas que, além da violência, tinham sido um prazer intenso para ele.

Burgess escreveu “A Laranja Mecânica” com 21 capítulos, correspondente à idade em que se atingia a maioridade. “21 é o símbolo da maturidade humana, ou costumava ser, já que aos 21 podias votar e assumias a responsabilidade adulta”, escreveu Burgess no prefácio para uma edição de 1986. O romance está dividido em 3 partes, cada uma com 7 capítulos: na primeira parte descrevem-se os atos de violência gratuita praticados por Alex e o seu gang de adolescentes; na segunda descreve-se o período passado por Alex na prisão; na terceira, encontramos Alex libertado após um tratamento hipnótico-terapêutico que lhe provoca intenso mal-estar perante os atos que praticava antes da prisão e lhe davam enorme prazer.

Embora Burgess tenha abandonado o catolicismo cedo na juventude, a influência da “formação” católica e da visão do mundo manteve-se forte no seu trabalho ao longo de toda a vida. Por exemplo, “A Laranja Mecânica” é uma notável metáfora sobre o livre-arbítrio, ao mostrar como o tratamento condicionador aplicado a Alex na prisão destruiu a sua capacidade para decidir entre praticar o bem ou praticar o mal. Além disso, é também uma crítica feroz à política e aos políticos, pois, mais do que aumentar a segurança da população, o interesse do governo era manter-se no poder a qualquer custo, ganhando votos à custa da redução da violência nas ruas.

Por precisar de dinheiro na altura, Burgess permitiu que “A Laranja Mecânica” fosse publicado nos EUA, omitindo o vigésimo primeiro capítulo, no qual Alex cresce, amadurece e deixa o banditismo, tornando-se um bom cidadão. A adaptação de Stanley Kubrick para o filme homónimo estreado em 1971 baseou-se na edição americana, dando assim a ideia de que a obra glorifica o sexo e a violência. Numa entrevista à BBC em 1980, Burgess distanciou-se desta adaptação, afirmando: “o filme facilitou que os leitores do livro não compreendessem sobre o que tratava, e esse mal-entendido perseguir-me-á até à minha morte”.

Burgess teve formação em linguística, o que se refletiu em diálogos enriquecidos por pronúncias distintivas e particularidades no registo de várias das suas obras, onde incluiu palavras adaptadas de línguas diferentes do inglês. É o caso da gíria adolescente anglo-russa inventada por Burgess para “A Laranja Mecânica”, a que chamou Nadsate. Confesso que me dificultou bastante a leitura, sobretudo no início até me adaptar. O glossário de Nadsate incluído no final foi fundamental para o prazer que a leitura me deu.

Apesar da linguagem por vezes violenta, mas também irónica, satírica e divertida, trata-se de uma obra muito interessante e educativa, cuja leitura recomendo a quem se interessa por educação, política, psicologia juvenil e distopia, que faz lembrar obras como “Admirável Mundo Novo” de Huxley ou “1984” de Orwell.

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