
“O que diz Molero”, um romance de Dinis Machado, publicado em 1977, marcou o reinício de um processo crítico sobre a necessidade de nos interrogarmos acerca da identidade portuguesa, bem como os caminhos possíveis para a convivência de uma pluralidade de formas artísticas.
“O que diz Molero” conta a história de um rapaz, nunca referido pelo nome próprio, que, depois de ter sobrevivido a todas as aventuras e desventuras de uma infância e adolescência normais para uma criança que vive inserida numa comunidade pobre, enceta uma viagem para procurar compreender quem é e qual o significado da vida.
A narrativa desenvolve-se a partir do diálogo entre duas personagens, Mister Deluxe e Austin, sobre o que diz uma outra personagem ausente, Molero. Molero fora encarregue por Austin e Mister Deluxe, seus superiores, de se pôr na pele de detetive e procurar traçar o itinerário do rapaz pelo mundo.
Ao longo do romance, o relatório de Molero vai sendo lido por estes superiores, e é através deles que o leitor vai sabendo o que aconteceu ao herói, o rapaz, os vários países por onde foi passando, os livros que foi lendo, as mulheres que foi amando e os amigos que foi fazendo e reencontrando. São pedaços fragmentados de uma vida que nos dão as pistas necessárias para traçar o perfil de alguém que procura um sentido para a existência.
Ao longo da narrativa, vamos assistindo a uma multiplicação de comentários, digressões, histórias contadas pelos dois interlocutores, por Molero ou pelo rapaz. Nesta estrutura mirabolante, “O Que Diz Molero” é um livro sobre o que duas personagens dizem sobre o que diz Molero num relatório sobre um rapaz, verdade seja, menos sobre o rapaz do que sobre o que disseram ou fizeram personagens que marcaram a sua infância e existência: os seus pais, uma tia louca, o Vampiro Humano, o Descoiso, o Zuca, o Evaristo, La Petite Mireille, Leduc, o Eremita das Mãos Frias, Cláudio, e muitas outras.
Os dois interlocutores, Mister Deluxe e Austin, recebem uma avalancha de mitos culturais, de dúvidas, de pensamentos, e vão tomando, a pouco e pouco, consciência de uma condição humana absurda, como as personagens de Beckett, de quem Dinis Machado era admirador.
A linguagem coloquial, humorada e inventiva, utilizada pelo autor, a que não é alheia uma oralidade popular, tenta cristalizar figuras, lugares e imagens de um quotidiano que parece perdido.
A estrutura do romance também merece destaque. Ao optar por uma narrativa fragmentada, com várias camadas e comentários sobre aquilo que é contado, o autor afasta-se do modelo tradicional de romance. Esta opção pode tornar a leitura mais exigente, mas é precisamente ela que dá originalidade ao livro. O leitor não recebe uma verdade definitiva sobre o rapaz; acompanha antes uma investigação incompleta, feita de pistas, lembranças e interpretações.
Outro ponto forte é a representação de um universo popular português, sobretudo ligado a Lisboa e aos seus bairros. As personagens surgem com nomes, tiques, histórias e comportamentos que lhes dão uma dimensão quase teatral. Há no romance uma galeria humana exuberante, onde o cómico e o trágico convivem de forma natural. Essa mistura torna a obra simultaneamente divertida, melancólica e profundamente humana.
Na minha opinião, “O que diz Molero” é uma obra de grande riqueza literária, embora nem sempre seja de leitura fácil. A ausência de uma narrativa linear e o ritmo intenso da escrita podem desorientar o leitor, mas também tornam o livro mais desafiante e original. A força da obra está na linguagem, na imaginação e na capacidade de transformar uma vida aparentemente comum numa aventura de descoberta.
O romance destaca-se ainda por levantar questões importantes sobre identidade, memória e sentido da existência. O rapaz sem nome pode ser visto como uma figura universal: alguém que procura compreender quem é, de onde vem e que lugar ocupa no mundo. Por isso, apesar de estar muito ligado a um contexto português específico, o livro mantém uma dimensão intemporal.
Resumindo, “O que diz Molero” é uma obra inovadora, marcada por uma linguagem singular e por uma estrutura narrativa ousada. Dinis Machado constrói um romance que combina humor, poesia, crítica social e reflexão filosófica, oferecendo ao leitor uma experiência literária diferente e memorável. Trata-se, por isso, de um livro importante para compreender a renovação da ficção portuguesa depois do 25 de Abril e a capacidade da literatura para reinventar a forma de contar uma vida.
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