
“Mataram a Cotovia”, romance de Harper Lee publicado originalmente em 1960, é uma das obras mais marcantes da literatura norte-americana do século XX. Vencedor do Prémio Pulitzer de Ficção em 1961, tornou-se um clássico pela forma como aborda, através de uma narrativa aparentemente simples, temas profundos como o racismo, a injustiça, a coragem moral e a perda da inocência.
A obra é narrada por uma menina de 6 anos, Scout, filha de Atticus Finch, um advogado de 52 anos que desafia o racismo visceral de Maycomb, a sua cidadezinha no Alabama, na década conturbada de 1930, ao defender Tom Robinson, um negro falsamente acusado de violar uma jovem branca. Nomeado advogado de defesa oficioso de Tom, Atticus recusou fazer papel de fantoche num processo que nunca teve chance de obter justiça e a decisão de “culpado” estava decidida antes mesmo de começar o julgamento, apesar de ter ficado plenamente provado não ter havido sequer o crime. Íntegro, corajoso, sábio e tolerante, este personagem de um homem intocável foi adorado desde o primeiro momento pelos leitores e aplaudido pela crítica.
Scout, a narradora, vê tudo com a curiosidade de criança, mas não interpreta, apenas observa os absurdos da justiça dos adultos com espanto. Scout não compreende o preconceito que domina a sua comunidade, e é precisamente essa incompreensão que torna mais evidente a irracionalidade do racismo e das desigualdades sociais. Atticus, o seu pai, não é um santo e tem os seus defeitos, como todos nós; mas é diferente dos outros, o que evidencia os preconceitos da comunidade de Maycomb. Harper Lee insere-se como personagem na história, através de Boo Radley, um vizinho que vive recluso na sua casa: Boo tenta ser uma figura marginal, silenciosa, que olha o mundo de dentro para fora; ironicamente, vai ter um papel importante no desenlace final do romance, tal como a escrita da autora teve na sociedade americana.
Pouco em “Mataram a cotovia” é fruto da imaginação da autora. Harper Lee nasceu e cresceu em Monroeville, no estado sulista de Alabama, uma cidade que ainda vivia o trauma da Guerra da Secessão, e Maycomb é o seu espelho; Lee praticamente só mudou o nome. Também Harper Lee é filha de um advogado, como Scout, e Dill Harris, o seu vizinho e amigo nas férias do verão, é o alter ego de Truman Capote. Jem, o irmão de Scout quatro anos mais velho, é Edwin, o irmão de Lee, seis anos mais velho. Nenhum destes e dos restantes personagens é, portanto, invenção; todos são recordações de infância da autora, são transposições discretas dos tipos sociais que Lee recordava. Sobre a personagem Boo Radley, Truman Capote escreveu: “Na minha versão original de ‘Other Voices, Other Rooms’ [Outras Vozes, Outros Lugares] tinha esse mesmo homem a viver na casa em que costumava deixar coisas nas árvores, e depois tirei isso. Era um homem real e vivia perto da nossa casa. Costumávamos ir lá buscar essas coisas das árvores. Tudo o que ela escreveu sobre isso é absolutamente verdade.”
A escrita de Harper Lee é clara, envolvente e equilibrada. Apesar de tratar assuntos dolorosos, a autora recorre muitas vezes ao humor, à ternura e às pequenas cenas do quotidiano para aproximar o leitor das personagens. Esta combinação torna a leitura acessível, mas nunca superficial. Pelo contrário, a simplicidade da linguagem reforça a força da mensagem e permite que o leitor reflita sobre problemas sociais que continuam atuais.
Na minha opinião, “Mataram a Cotovia” é uma obra indispensável porque consegue ser, ao mesmo tempo, uma história de crescimento, uma crítica social e uma lição de humanidade. O romance obriga-nos a pensar sobre a forma como julgamos os outros e sobre a responsabilidade individual perante a injustiça. É um livro comovente e intemporal, que recomendo a todos os leitores que procuram uma narrativa capaz de emocionar e, ao mesmo tempo, fazer refletir.
Em 1962, “Mataram a Cotovia” foi adaptado para o cinema e Lee ajudou na adaptação para o argumento, que foi escrito por Horton Foote. Tal como o romance, o filme foi um sucesso. Nomeado para oito Oscares, ganhou três: os de Melhor Ator para Gregory Peck no papel do advogado Atticus Finch, de Melhor Roteiro e de Melhor Direção de Arte. Foi também adaptado para o teatro em várias cidades dos EUA e em Londres, e ganhou uma versão na Broadway.
Leave a Reply