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Chamo-me Sebastião Barata e resido em Lisboa. Tenho 79 anos e leio desde muito novo. Uso a minha grande biblioteca para fazer vídeos e áudios que divulgo nas minhas redes sociais. Sigam-me!

Publicado em 1966, “O Casamento” é o único romance de Nelson Rodrigues lançado originalmente em formato de livro. Todos os outros começaram por ser publicados em episódios na imprensa. Foi o primeiro livro a ser censurado pela ditadura militar brasileira, por ser considerado “um atentado contra a organização da família”.

Conhecido sobretudo pelas suas peças teatrais e pela sua escrita provocadora, Nelson Rodrigues constrói nessa obra uma narrativa marcada por tensões familiares, hipocrisia social e conflitos morais. O romance gira em torno dos acontecimentos que antecedem o casamento de Glorinha, filha de Sabino, um homem rico, conservador e obcecado pela aparência de respeitabilidade sua e da sua família.

A história concentra-se nas 24 horas anteriores ao casamento de Glorinha e Teófilo. A trama começa quando Sabino, pai de Glorinha, descobre na manhã da véspera do casamento uma informação perturbadora sobre Teófilo. O médico da família visita-o no seu escritório para o avisar de que tinha surpreendido o futuro genro a beijar outro homem, o empregado do seu consultório. Sabino enfrenta um dilema: o casamento não pode ser adiado, mas como aceitar uma coisa tão condenada pela sociedade?  A partir daí, o que parecia ser apenas a preparação para uma cerimónia tradicional e um acontecimento mundano transforma-se numa sequência de revelações, suspeitas e confrontos.

Nelson Rodrigues usa o casamento não como símbolo de harmonia, mas como ponto de partida para expor desejos reprimidos, falsidades e contradições escondidas sob a fachada da família burguesa tradicional. Um dos aspetos mais marcantes do livro é a forma como o autor trata temas considerados polémicos, como traição, culpa, desejo, violência e repressão.

A escrita de Nelson Rodrigues é direta, intensa e muitas vezes desconfortável, marcada pela ironia, sarcasmo e humor negro típicos do autor, levando o leitor a encarar personagens moralmente ambíguos, tendo todos algo de inconfessável a esconder. Sabino, por exemplo, tenta defender a honra da família, mas as suas atitudes revelam inseguranças, obsessões e impulsos que contradizem a imagem de homem correto que deseja passar.

Além do enredo provocador, “O Casamento” chama a atenção pelo seu retrato crítico da sociedade brasileira. O autor questiona instituições vistas como sagradas, especialmente a família e o matrimónio, mostrando que muitas relações são sustentadas mais por convenções sociais do que por afeto verdadeiro. Mostra também que a homossexualidade não é uma situação tão incomum e tão inaceitável como certos sectores da sociedade continuam a considerar. Essas críticas incomodaram muita gente na época e continuam a incomodar, mas são elas que tornam o livro uma obra relevante, pois aborda problemas que continuam presentes nas relações humanas.

Em síntese, “O Casamento” é uma leitura forte, densa e provocadora. Nelson Rodrigues não oferece personagens ideais, nem uma visão romântica do casamento; pelo contrário, apresenta um universo marcado por máscaras, conflitos e verdades difíceis de aceitar. Por isso, é uma obra indicada para leitores interessados em narrativas psicológicas e em críticas sociais. A sua leitura é especialmente útil para aqueles que desejam compreender melhor a importância de Nelson Rodrigues na literatura brasileira.

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