
“A Insustentável Leveza do Ser” é uma espécie de grande crónica acerca da frágil natureza do destino, do amor e da liberdade humana. Mostra como uma vida é sempre um rascunho de si mesma, como nunca é vivida por inteiro, como é impossível de se repetir e como o amor pode ser frágil.
Em “A Insuportável Leveza do Ser”, o autor estuda o mito nietzscheano do eterno retorno. Foca-se no facto de que o Homem vive apenas uma vez; a sua vida não se repete, e ele não pode corrigir os seus erros. E como a vida é única, o homem prefere vivê-la com leveza, numa absoluta ausência de responsabilidade, se lhe possível.
A ação inicia-se em Praga, em 1968, o ano da invasão russa na Checoslováquia, e centra-se no médico cirurgião Tomas que procura alcançar a felicidade através da liberdade sexual. Para além desta personagem, destacam-se Tereza, uma fotógrafa, que Tomas recolheu em sua casa e considera a sua mulher, embora seja casado com outra, com que tem um filho; Sabina, uma pintora, e uma das muitas amantes de Tomas; Franz, um professor universitário, que é apaixonado por Sabina, mas que, para ela, não passa de mais um dos seus parceiros para o sexo. A vida e os planos amorosos destas personagens são afetados pela invasão soviética à capital checa, com o fim de esmagar o movimento para a restauração da democracia, que ficou conhecido como “primavera de Praga”.
Kundera explora a filosofia do “eterno retorno” de Nietzsche. Para Kundera, não há retorno, só temos uma vida e cada momento da nossa vida é irrepetível: se não aproveitarmos cada momento, ou se tomarmos a decisão errada em cada situação concreta da vida, não nos será dada uma segunda oportunidade, vamos ter de arrotar com as consequências até morrermos.
Mas Kundera questiona a natureza da existência, a noção do que é certo ou errado. A metáfora central do livro contrapõe a leveza ao peso: a leveza pode ser libertadora, mas também vazia, enquanto o peso confere sentido à vida, mas é também opressor. Essa dualidade permeia as decisões dos personagens, mostrando que não há respostas definitivas para as questões existenciais que enfrentam. Por isso, todas as decisões estão simultaneamente certas e erradas, tudo tem um lado bom e ou lado mau, tudo nos eleva e rebaixa, tudo geram felicidade e dor, tudo é um passo em direção à vida e à morte.
Numa das sete partes do livro, Kundera apresenta a sua definição de kitsch: aquilo que nos leva a esconder os lados feios da vida e a nossa recusa da morte. A expressão que usa para definir kitsch é: “Kitsch é a negação da merda”. Afirma que nenhuma ideologia está isenta de temer esta definição: seja católica, protestante, judaica, comunista, fascista, democrática, feminista, americana, nacional, internacional, etc. Através da metáfora da “merda”, Kundera pretende significar tudo o que todos, qualquer que seja a sua ideologia, a sua crença ou o seu estatuto social, procuram esconder, aquilo que as pessoas só mostram na intimidade e as ideologias escondem das massas que as apoiam. kitsch é, portanto, aquilo que achamos vergonhoso e achamos que nos coloca mal, se for visto ou divulgado.
A obra apresenta uma estrutura não linear, recurso que facilita a compreensão da personalidade de cada personagem. No entanto, pode confundir alguns leitores, com os seus avanços e recuos. Saliente-se ainda a linguagem complexa e, por vezes, abstrata, dados os conceitos filosóficos que são abordados no romance. Em resumo: “A Insustentável Leveza do Ser” é uma obra rica em reflexões filosóficas e emocionais, que desafia o leitor a considerar a complexidade da vida e as escolhas que moldam a nossa existência. Através dos seus personagens e das suas interações, Kundera oferece uma visão profunda sobre a condição humana, tornando o livro uma leitura essencial para aqueles que procuram entender as nuances da vida e do amor.
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