
“O Americano Tranquilo” é um dos mais emblemáticos romances de Graham Greene, um escritor inglês considerado por muitos críticos como um dos principais romancistas do século XX. Greene viajou ao longo da sua vida para aquilo a que chamava os lugares selvagens e remotos do mundo, entre os quais os cenários das guerras da Indochina, nos quais se passa este romance.
A história transporta-nos para o Vietname do início dos anos 1950, cenário de tensões políticas, coloniais e pessoais. A narrativa desenrola-se através do olhar de Thomas Fowler, um jornalista britânico cético e experiente, que acompanhou as guerras na zona nos anos anteriores. Fowler vê-se envolvido num triângulo amoroso e num confronto de ideais com Alden Pyle, um misterioso americano recém-chegado ao país, que se apaixona pela jovem vietnamita com que aquele vive.
Greene construiu habilmente um ambiente carregado de suspense e de ambiguidade moral, onde as motivações dos protagonistas se entrelaçam com o contexto histórico da guerra da Indochina. O intervencionismo americano, que desejava ganhar preponderância na zona, é-nos apresentada através da ingenuidade de Pyle, contrapondo-se ao desencanto e ao pragmatismo de Fowler, que vê os povos locais a tentar destruir o colonialismo francês; no meio do desencontro entre estas duas personagens centrais, está a personagem de Phuong, a jovem vietnamita, que, embora menos desenvolvida, simboliza a complexidade e a vulnerabilidade do Vietname perante os interesses das potências estrangeiras em confronto: especialmente os franceses, ingleses e americanos.
A escrita de Greene é precisa, cínica e, por vezes, profundamente poética, oferecendo ao leitor uma reflexão sobre as consequências imprevistas das boas intenções e o preço a pagar pela neutralidade.
“O Americano Tranquilo” continua atual, desafiando-nos a questionar a ética das intervenções internacionais e a natureza da responsabilidade individual em tempos de conflito.
Confesso que não foi um dos livros que mais prazer me deram de ler nos últimos tempos, mas nem por isso o deixo de o aconselhar, pela sua atualidade, nesta altura em que as grandes potências tentam alargar as suas zonas de influência no mundo, à custa de povos menos capazes de se defenderem.
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