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Chamo-me Sebastião Barata e resido em Lisboa. Tenho 79 anos e leio desde muito novo. Uso a minha grande biblioteca para fazer vídeos e áudios que divulgo nas minhas redes sociais. Sigam-me!
Ray Bradbury foi um escritor e roteirista norte-americano nascido em 1920 e falecido em 2012. Escreveu fantasia, ficção-científica e horror, sendo conhecido principalmente pelo romance “Fahrenheit 451” e pela coletânea de ficção científica “Crónicas Marcianas”.
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“O Médico de Estalinegrado”, de Heinz G. Konsalik, é uma obra marcante que mergulha o leitor na dura realidade dos prisioneiros alemães nos campos de trabalho soviéticos durante e após a Segunda Guerra Mundial. Inspirado em testemunhos reais, o romance acompanha um médico alemão, o Major Fritz Böhler, capturado pelo Exército Vermelho nos finais da Segunda Guerra Mundial, e forçado a sobreviver e a exercer medicina em condições extremas, num campo de trabalho de prisioneiros alemães, a que os russos chamavam пленни (plenni), que significa “prisioneiro”, tendo de conciliar o instinto de sobrevivência com o compromisso ético da sua profissão.
Excelente médico, tratou com igual dedicação russos e alemães, tendo salvado casos desesperados que os médicos russos consideravam já não ter solução, em condições de trabalho muito precárias, pelo que angariou um prestígio enorme entre camaradas e inimigos. A sua dedicação chegou ao ponto de se recusar a ser repatriado, após sete anos de cativeiro, para poder continuar a prestar assistência aos que continuavam presos. Só voltou à Alemanha dois anos depois, integrado no último contingente de repatriados.
Konsalik apresenta-nos personagens densos e complexos, explorando não só a luta física pela sobrevivência, mas também os conflitos morais e emocionais que emergem em cenários de desumanização, como eram os campos de trabalho da URSS. O autor revela de forma crua o sofrimento, a fome, o frio e a constante ameaça de morte, ao mesmo tempo que evidencia pequenos gestos de humanidade e solidariedade entre os prisioneiros.
O estilo de escrita é envolvente e direto, conseguindo transmitir ao leitor a angústia e a esperança que coexistem num ambiente tão adverso. Apesar de se tratar de uma ficção, a narrativa tem um forte cunho documental, o que lhe confere autenticidade e impacto emocional.
Em suma, “O Médico de Estalinegrado” é uma leitura intensa e comovente, que desafia o leitor a refletir sobre os limites da resistência humana e a importância da compaixão, mesmo nos momentos mais sombrios da História. Recomendo vivamente a sua leitura a quem se interessa por romances históricos e pela condição humana em tempos de guerra.
Fiódor Dostoievski foi um escritor, filósofo e jornalista russo nascido em Moscovo em 1821 e falecido em São Petersburgo em 1881. Considerado um dos maiores romancistas e pensadores da história, escreveu obras-primas como “Crime e Castigo”, “O Idiota” e “Os Irmãos Karamazov”.
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“Romanceiro da Inconfidência” é a principal obra da escritora modernista Cecília Meireles. Publicada em 1953, nela estão condensados os principais elementos da sua poética. É uma narrativa em versos rimados, construída sobretudo em redondilhas, que misturam o tom épico com o lírico, para prestar uma homenagem aos heróis que são sacrificados em nome da liberdade.
Na minha opinião, o título é claramente inspirado nos “romances” medievais que foram recolhidos, desde os anos vinte do século XIX até ao presente. São histórias em verso, que exaltam heróis, geralmente da época da cavalaria medieval, transmitidas oralmente por jograis, por poetas ambulantes, que se deslocavam de romaria em romaria, de feira em feira, se transmitiram de geração em geração e ficaram na memória do povo. Um exemplo muito conhecido desses romances é “A Nau Catrineta”.
“Romanceiro da Inconfidência” aborda a luta pela independência em finais do século XVIII no Brasil. Nesse movimento, Cecília alinha-se com outros escritores da sua época ao propor uma releitura crítica do projeto de literatura nacional inaugurado com o Romantismo.
Nos poemas que compõem a coletânea, a autora oferece um olhar mais íntimo e sensível sobre os protagonistas da “Inconfidência Mineira”, revelando as suas fragilidades, ideais e conflitos internos. Diferentemente de uma narrativa puramente histórica, a autora humaniza os “inconfidentes”, aproximando-os do leitor por meio da emoção e da reflexão.
A coletânea tem uma estrutura muito especial, em que os poemas estão ordenados por ordem cronológica, de modo a narrar as causas da rebelião, a sua preparação, denúncia e consequências. É estruturada em 85 romances (as partes narrativas), intercalados com 4 cenários (as descrições dos espaços físicos no qual a ação se passa) e 3 falas (em que a autora dá voz diretamente aos personagens).
A linguagem empregada em “Romanceiro da Inconfidência” é mais direta e acessível do que noutras obras da escritora, sem perder a densidade poética que caracteriza a sua produção poética. Essa escolha estilística reforça o propósito da autora de tornar a história nacional brasileira mais envolvente.
Para se entenderem melhor os poemas desta coletânea há que conhecer um pouco do que foi a “Inconfidência Mineira”. A Inconfidência foi um movimento desencadeado em 1789 que visava a independência de Minas Gerais, na sequência da cobrança de uma “derrama”, ou seja, de um novo imposto que a Coroa portuguesa tinha começado a fazer há alguns anos, para compensar a grande diminuição do ouro que ia do Brasil para Portugal. A Coroa tinha direito a receber um quinto de todo o ouro recolhido. Apesar de haver muita fuga e contrabando, a principal razão era que as minas estavam a esgotar-se e os próprios senhores da região de Minas estavam a empobrecer. Por isso, tentaram uma revolta contra os reis de Portugal, inspirados na recente independência dos Estados Unidos da América, apostados em fazer o mesmo no Brasil.
Mas a conjura foi descoberta, graças a denúncias, e os principais conjurados foram presos, levados para o Rio de Janeiro, julgados e condenados à morte na forca. O principal delator foi o coronel e também ele fazendeiro Joaquim Silvério dos Reis, para daí tirar benefícios pessoais, como poderão ver nesta passagem do romance 34:
Melhor negócio que Judas fazes tu, Joaquim Silvério: que ele traiu Jesus Cristo, tu trais um simples Alferes. Recebeu trinta dinheiros… – e tu muitas coisas pedes: pensão para toda a vida, perdão para quanto deves, comenda para o pescoço, honras, glórias, privilégios. E andas tão bem na cobrança Que quase tudo recebes.
Todos os condenados, como eram muito ricos, conseguiram que a sua morte fosse comutada em degredo para as colónias de Angola e Moçambique. O único a ser enforcado foi o alferes Joaquim José da Silva Xavier, conhecido por o Tiradentes, considerado o chefe da rebelião e o único que não tinha bens suficientes para comprar a sua liberdade. Depois de morto, o corpo do Tiradentes foi desmembrado e as partes espalhadas pelas principais povoações de Minas Gerais, para desincentivar quem ainda tivesse ideias revolucionárias:
Pois agora é quase um morto, partido em quatro pedaços, e – para que Deus o aviste – levantado em postes altos.
A autora demonstra grande sensibilidade ao abordar os dilemas humanos e políticos, tornando “Romanceiro da Inconfidência” uma obra indispensável para quem deseja compreender a história e a alma brasileira através da poesia.
Em suma, trata-se de uma obra que une o rigor histórico à beleza literária, reafirmando Cecília Meireles como uma das vozes mais importantes da poesia de língua portuguesa. O livro não só celebra a Inconfidência Mineira, mas também convida o leitor a pensar sobre o significado da liberdade e da justiça em qualquer época.
Marguerite Duras foi uma escritora, roteirista, cineasta e dramaturga francesa nascida em Saigão (no atual Vietname), em 1914, e falecida em Paris, em 1996, sendo considerada uma das principais vozes femininas da literatura do século XX na Europa, autora de romances famosos como “O Amante”, “O Vice-Cônsul” e “Uma Barragem contra o Pacífico”.
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José Mauro de Vasconcelos foi um escritor brasileiro nascido no Rio de Janeiro em 1920 e falecido em São Paulo em 1984. A sua obra mais conhecida é o romance juvenil “O Meu Pé de Laranja Lima”.
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“As velas ardem até ao fim” é, sem dúvida, o livro mais aclamado de Sándor Márai. Este título é a tradução do original, mas no Brasil e noutros países foi lançado com o título “As Brasas”, que é a tradução do título da primeira edição francesa.
O romance fala de amizade, paixão e honra. Trata do reencontro entre dois amigos, Henrik e Konrad, que não se veem há 41 anos. Konrad desapareceu aos 22 anos. Existe um segredo que envolve o dia do seu desaparecimento, segredo que mudou a vida dos dois, e sobre o qual agora, aos 73 anos de idade, irão finalmente poder falar. Atravessado entre eles, está o fantasma de Krisztina, a mulher de Henrik, falecida sete anos depois do desaparecimento de Konrad.
O livro está dividido em duas partes, que podemos identificar como a espera e o reencontro. Enquanto espera, Henrik relembra como foi a sua vida até ao momento em que Konrad o deixou inesperadamente e sem aviso, depois de uma manhã de caça na sua propriedade. Amigos inseparáveis desde a escola e agora camaradas militares, o que o pode ter levado a tomar tal atitude?
A segunda parte da obra passa-se no mesmo cenário onde tudo decorreu antes da separação: a mansão de Henrik, um pequeno castelo de caça na Hungria, em cujos salões decorados ao estilo francês, se divertiam, ao som da música de Chopin, mas agora está quase vazio e silencioso. Konrad chega depois de quatro décadas passadas no Extremo Oriente e encontra Henrik, que permaneceu todo este tempo no seu castelo. Ambos esperaram toda a vida por este momento. O reencontro dura cerca de 12 horas. Henrik abre o coração num longo monólogo, Konrad pouco fala. Conseguirão que o passado fique esclarecido? Do desenlace depende o futuro de ambos.
O passado destes dois amigos fraturado pela quebra da confiança entre eles, é um movimento análogo à condição política na Europa nos anos 1940. A destruição provocada pela guerra, tal como a velhice dos personagens, dá um tom de irreversibilidade do tempo histórico e das condições políticas. Assim, “As Velas Ardem até ao Fim” aciona modos de vivenciar subjetivamente o tempo, articulando emoções ligadas ao passado e ao futuro, como uma forma de nostalgia aberta à esperança.
Gostei muito da forma como Sándor Márai desenrola a trama do romance, através de pequenas revelações que vão surgindo página a página, até à revelação final. É de facto uma obra maravilhosa, que bem merece a fama que alcançou nas últimas décadas, depois de muitos anos quase votado ao esquecimento.
Aldous Huxley foi um escritor inglês nascido em Godalming, na Inglaterra, em 1894 e falecido em Los Angeles, nos Estados Unidos da América, em 1963, mais conhecido pelo seu romance distópico “Admirável Mundo Novo”.
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Augusto Gil foi um poeta português nascido na freguesia de Lordelo do Ouro na cidade do Porto em 1870 e falecido em Lisboa em 1929. O seu poema mais conhecido é a “Balada da Neve” que faz parte da coletânea “Luar de Janeiro”, considerada a sua obra-prima.
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“Les Fleurs du Mal” (As Flores do Mal) é uma coletânea de poemas de Charles Baudelaire publicada em 1857, que foi republicada de 1861 a 1868 em três versões sucessivas, enriquecidas com novos poemas. Considerada uma obra maldita, a coletânea foi esquecida e a sua reabilitação só ocorreu quase um século depois, em maio de 1949. Hoje, “As Flores do Mal” é considerada uma das obras mais importantes da poesia moderna.
Quando saiu a 1ª edição, a coletânea foi apreendida sob a acusação de “insulto à moral pública” e “ofender a moral religiosa”, e Baudelaire condenado a uma pesada multa. Seis poemas foram proibidos e não constaram nas edições seguintes. A edição que li, uma tradução premiada de Fernando Pinto do Amaral e publicada pela Assírio & Alvim, traz em anexo estes seis poemas.
A obra expressa uma nova estética em que a arte poética contrapõe uma visão trivial dos sentimentos humanos à mais inefável beleza. Exerceu uma influência considerável sobre poetas simbolistas posteriores, como Paul Verlaine, Stéphane Mallarmé e Louis Aragon.
Os poemas não foram reunidos ao acaso, mas estão articulados de forma metódica e segundo um desenho preciso. Na edição consolidada de 1861, Baudelaire incluiu 126 poemas, além de um prólogo excluído da numeração dos poemas e está dividida em seis partes: “Spleen e Ideal” (poemas 1 a 85), “Quadros Parisienses” (86 a 103), “O Vinho” (104 a 108), “Flores do Mal” (109 a 117), “Revolta” (118 a 120) e “A Morte” (121 a 126).
“Spleen e Ideal” apresenta uma avaliação intransigente do mundo real: uma fonte de aflição e de mal-estar (spleen – tédio), que em Baudelaire provoca um retraimento, mas também o desejo de reconstruir mentalmente um universo que lhe pareça viável. As três secções seguintes são tentativas de alcançar este ideal. O poeta afoga-se na multidão anónima da Paris onde sempre viveu (“Quadros parisienses”), aventura-se nos paraísos artificiais da bebida e das drogas (“O Vinho”) e procura prazeres carnais que se revelam fonte de encantamento, seguida de remorso (“Flores do Mal”). Este triplo fracasso leva à rejeição de uma existência decididamente vã (“Revolta”), que leva ao aniquilamento (“A Morte”).
Os temas principais são: o nojo pelo mundo real, sujeito ao pecado e ao tédio que aquele inspira; o masoquismo – prazer e sofrimento aparecem, na maioria das vezes, intrinsecamente ligados; a obsessão pela morte, explícita ou velada numa grande parte dos poemas. São frequentes outros temas, geralmente concretizadores daqueles temas principais: o pôr-do-sol, a noite, a lua, o sono, o sangue, o abismo, a fé, os cheiros, o mar, a água, ou o exotismo dos lugares remotos, entre outros.
Também a imagem da Mulher pontua toda a coletânea, seja como cúmplice, maternal, amante, vítima, seja como cruel, tirana, perversa, diabólica.
Baudelaire era apaixonado pela pintura. Como “pintor” de ideias, inventa imagens de grande força expressiva que deixam uma impressão duradoura na mente do leitor. Por vezes, a adição de um simples adjetivo é suficiente para transfigurar uma expressão comum numa coisa bela.
Baudelaire gostava de formatos curtos, favoráveis à condensação do seu pensamento. O facto de ter utilizado o soneto em mais de quatro em cada dez poemas realça essa caraterística. A principal exceção é o poema “A Viagem” que tem 36 estrofes divididas em 8 secções.
Quanto à métrica, sete em cada dez poemas são alexandrinos (12 sílabas métricas), um formato suficientemente grande para desenvolver os seus pensamentos. Mas há também muitos octossílabos (8 sílabas métricas), por vezes os dois formatos no mesmo poema.
Em resumo: “As Flores do Mal”, a obra-prima de Charles Baudelaire, é um marco fundamental da poesia moderna. Explora temas como o amor, a morte, a decadência, o tédio e o fascínio pelo proibido, revelando a dualidade da condição humana entre a busca pelo sublime e o mergulho no abismo. Os versos, carregados de musicalidade e imagens perturbadoras, onde o belo e o sombrio coexistem, desafiavam as convenções morais e literárias da época. Baudelaire, com uma linguagem refinada e inovadora, rompeu com os padrões românticos e inaugurou uma sensibilidade estética que influenciaria gerações de poetas simbolistas. A leitura de “As Flores do Mal” continua a ser uma experiência intensa e inquietante. Uma obra indispensável para quem deseja compreender o poder transformador da poesia e a profundidade do pensamento de Baudelaire.