Grandes autores Grandes livros

Aqui encontra links para vídeos e áudios sobre grandes autores e as suas obras, recensões de livros, textos literários de minha autoria e notícias do mundo literário

Chamo-me Sebastião Barata e resido em Lisboa. Tenho 79 anos e leio desde muito novo. Uso a minha grande biblioteca para fazer vídeos e áudios que divulgo nas minhas redes sociais. Sigam-me!

  • Honoré de Balzac foi um escritor francês nascido em 1799 em Tours, e falecido em 1850 em Paris, autor de “A Comédia Humana”, um conjunto de 95 romances, novelas e contos que procuram retratar todos os níveis da sociedade francesa da época, em particular a florescente burguesia, entre os quais os romances “Eugénia Grandet”, “O Pai Goriot” e “A Mulher de Trinta Anos”.

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  • O romance distópico de Anthony Burgess “A Laranja Mecânica” (“A Clockwork Orange” no original), publicado em 1962, é considerado a sua obra-prima. Foi inspirado num incidente durante o Blitz de Londres da Segunda Guerra Mundial, em que a sua esposa Lynne foi assaltada, agredida e violada por desertores do Exército dos EUA em Londres durante o apagão, de que pode ter resultado o seu aborto espontâneo subsequente.

    O livro é um exame do livre-arbítrio e da moralidade. O jovem anti-herói, Alex, capturado após uma curta carreira de violência e caos, passa por um tratamento de terapia de aversão para conter as suas tendências violentas. Esse tratamento resulta em torná-lo indefeso perante os outros e incapaz de desfrutar das suas músicas favoritas que, além da violência, tinham sido um prazer intenso para ele.

    Burgess escreveu “A Laranja Mecânica” com 21 capítulos, correspondente à idade em que se atingia a maioridade. “21 é o símbolo da maturidade humana, ou costumava ser, já que aos 21 podias votar e assumias a responsabilidade adulta”, escreveu Burgess no prefácio para uma edição de 1986. O romance está dividido em 3 partes, cada uma com 7 capítulos: na primeira parte descrevem-se os atos de violência gratuita praticados por Alex e o seu gang de adolescentes; na segunda descreve-se o período passado por Alex na prisão; na terceira, encontramos Alex libertado após um tratamento hipnótico-terapêutico que lhe provoca intenso mal-estar perante os atos que praticava antes da prisão e lhe davam enorme prazer.

    Embora Burgess tenha abandonado o catolicismo cedo na juventude, a influência da “formação” católica e da visão do mundo manteve-se forte no seu trabalho ao longo de toda a vida. Por exemplo, “A Laranja Mecânica” é uma notável metáfora sobre o livre-arbítrio, ao mostrar como o tratamento condicionador aplicado a Alex na prisão destruiu a sua capacidade para decidir entre praticar o bem ou praticar o mal. Além disso, é também uma crítica feroz à política e aos políticos, pois, mais do que aumentar a segurança da população, o interesse do governo era manter-se no poder a qualquer custo, ganhando votos à custa da redução da violência nas ruas.

    Por precisar de dinheiro na altura, Burgess permitiu que “A Laranja Mecânica” fosse publicado nos EUA, omitindo o vigésimo primeiro capítulo, no qual Alex cresce, amadurece e deixa o banditismo, tornando-se um bom cidadão. A adaptação de Stanley Kubrick para o filme homónimo estreado em 1971 baseou-se na edição americana, dando assim a ideia de que a obra glorifica o sexo e a violência. Numa entrevista à BBC em 1980, Burgess distanciou-se desta adaptação, afirmando: “o filme facilitou que os leitores do livro não compreendessem sobre o que tratava, e esse mal-entendido perseguir-me-á até à minha morte”.

    Burgess teve formação em linguística, o que se refletiu em diálogos enriquecidos por pronúncias distintivas e particularidades no registo de várias das suas obras, onde incluiu palavras adaptadas de línguas diferentes do inglês. É o caso da gíria adolescente anglo-russa inventada por Burgess para “A Laranja Mecânica”, a que chamou Nadsate. Confesso que me dificultou bastante a leitura, sobretudo no início até me adaptar. O glossário de Nadsate incluído no final foi fundamental para o prazer que a leitura me deu.

    Apesar da linguagem por vezes violenta, mas também irónica, satírica e divertida, trata-se de uma obra muito interessante e educativa, cuja leitura recomendo a quem se interessa por educação, política, psicologia juvenil e distopia, que faz lembrar obras como “Admirável Mundo Novo” de Huxley ou “1984” de Orwell.

  • “O Homem do Castelo Alto” (The Man in the High Castle, no original) é um romance escrito pelo norte-americano Philip K. Dick em 1962. É uma história distópica com elementos de ficção científica e romance ambientada no ano de 1962; nessa versão dos factos, as potências do Eixo derrotaram os Aliados na Segunda Guerra Mundial, ficando os Estados Unidos divididos entre a Alemanha nazi e o Império do Japão.

    Nos Estados Unidos do mundo alternativo de “O Homem do Castelo Alto”, o presidente Franklin D. Roosevelt é assassinado em 1933; sucede-lhe o Vice-Presidente John Nance Garner, que posteriormente é substituído por John W. Bricker. Nenhum deles é capaz de superar a Grande Depressão e, perante a ameaça da Segunda Guerra Mundial, instalam no país uma política isolacionista que causa uma insuficiência militar, impedindo-o de ajudar o Reino Unido e a União Soviética que são derrotados pela Alemanha nazi.

    Toda a Europa, incluindo a URSS, é ocupada pelos nazis e os japoneses destroem totalmente as tropas dos Estados Unidos no ataque a Pearl Harbor. O Japão invade e ocupa o Havai, a Austrália, a Nova Zelândia e o Sudoeste do Pacífico no início dos anos 1940 e, posteriormente, os Estados Unidos caem sob o controle do Eixo.

    O Reich Alemão e o Império japonês tornam-se superpotências de que resulta uma Guerra Fria entre elas. Em 1948, a Costa Leste dos Estados Unidos está sob controle alemão, enquanto a Califórnia, Washington, Oregon, Nevada e outras partes pertencem aos japoneses. A região de Mountain States, o Centro-Oeste e grande parte do Sudoeste estão em permanente tensão pelo controle das duas superpotências.

    Adolf Hitler fica incapacitado por sífilis, a chefia da Chancelaria do Partido Nazi cabe a Martin Bormann, que assume a liderança da Alemanha. Os nazis criam um império colonial e continuam a massacrar raças que consideram inferiores; assassinam judeus no estado fantoche dos Estados Unidos e noutras áreas controladas, e realizam um genocídio maciço na África.

    A Alemanha desenvolve o seu programa de mísseis e, em 1962, as viagens intercontinentais são realizadas em foguetes comerciais; desenvolve também a exploração espacial, através do envio de foguetes para a Lua, Marte e Vénus. Mais tarde, o sistema espacial nazi “monta fábricas robotizadas em todo o sistema solar”. No entanto, devido aos investimentos em exploração espacial, a economia está à beira do colapso. Martin Bormann morre e outros nazis, como Joseph Goebbels e Reinhard Heydrich, lutam para se tornarem o novo chanceler do Reich.

    O Império japonês não consegue acompanhar o Terceiro Reich no desenvolvimento tecnológico. Mas, lenta e subtilmente, como é típico dos orientais, o Império Japonês vai minando na sombra o poder do Terceiro Reich nos Estados Unidos. Aproveitando a natural superstição da pessoa humana, uma das armas usadas é o “I Ching” que os japoneses disseminaram através do Pacífico. Vários personagens, tanto japoneses quanto americanos, não tomam quaisquer decisões importantes sem consultar o “I Ching”.

    Uma forma de Philip K. Dick ridicularizar os ocupantes é a mania do colecionismo. Robert Childan é proprietário da loja “Artesanato Artístico Americano”, que vende antiguidades americanas para colecionadores, principalmente japoneses. Childan obtém as peças na Wyndham-Matson Inc. e não acredita que esses itens sejam verdadeiros. Na verdade, a Wyndham-Matson Inc. é secretamente uma empresa especializada na reprodução de objetos americanos da época em que os Estados Unidos eram uma nação independente. Nobusuke Tagomi, representante do comércio japonês em São Francisco, é um dos melhores clientes de Robert Childan. Mr. Baynes, na verdade o Capitão Rudolf Wegener, da contrainteligência naval do reich, está disfarçado como um rico industrial sueco que viaja para se encontrar com o Sr. Tagomi e é surpreendido quando este o cumprimenta e lhe dá um “verdadeiro” Mickey Mouse, comprado na loja de Childan.

    Nesse cenário, surge um romance escrito pelo lendário Hawthorne Abendsen, que se assina como o “Homem do Castelo Alto”; vive algures nas montanhas da zona neutra e receia constantemente pela sua vida, mas os nazis não o conseguem descobrir e eliminar. O livro descreve um mundo distópico em que a guerra foi ganha pelos aliados, toma conta da imaginação das pessoas e é um grito de revolta para todos aqueles que sonham derrubar os invasores. Mas poderá ser mais do que isso? Subtil e complexo, “O Homem do Castelo Alto” permanece como o melhor romance de história alternativa jamais escrito.

  • H. G. Wells foi um prolífico escritor inglês nascido em 1866 e falecido em 1946, cujos romances de ficção científica lhe valeram o título (juntamente com Júlio Verne e Hugo Gernsback) de “O Pai da Ficção Científica”. As suas obras mais conhecidas são “A Máquina do Tempo”, “A Guerra dos Mundos”, “O Homem Invisível” e “A Ilha do Doutor Moreau”.

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  • José de Alencar nascido em Fortaleza em 1829 e falecido no Rio de Janeiro em 1877, foi um escritor e político brasileiro considerado o fundador do romance nacional brasileiro. A sua obra mais conhecida é a trilogia formada pelos livros “O Guarani”, “Iracema” e “Ubirajara”.

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  • Robert Louis Stevenson foi um influente novelista, poeta e escritor de livros de viagem britânico nascido em Edimburgo, na Escócia, em 1850 e falecido em Vailima, nas Ilhas Samoa, em 1894. Escreveu clássicos como “A Ilha do Tesouro” e “O Médico e o Monstro”.

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  • Tarzan dos Macacos (no original, Tarzan of the Apes) é o romance que apresentou ao mundo a figura do “homem da selva” criado numa família de grandes símios e inaugurou uma das séries mais duradouras da literatura popular. A história apareceu primeiro na revista The All-Story em 1912, antes de ser lançada em volume em 1914, e rapidamente se tornou um fenómeno de massas, com dezenas de sequelas e incontáveis adaptações.

    No final do século XIX, um casal de aristocratas ingleses é abandonado na costa ocidental de África por marinheiros revoltosos que tomam o navio; conseguem construir uma cabana na selva, mas morrem ao fim de um ano, deixando um filho recém-nascido. O bebé é acolhido e alimentado por Kala, uma fêmea de símio que tinha acabado de perder a sua cria, e cresce entre o seu grupo, aprendendo a sobreviver num mundo regido pela força, pelo instinto e por uma hierarquia rígida. Mais tarde, ao descobrir a cabana dos pais e alguns livros, começa – de forma improvável, mas que resulta muito bem na narrativa – a aprender sozinho a ler e a escrever, abrindo uma fenda entre a sua vida “selvagem” e a consciência de que existe outra forma de estar no mundo. A chegada de novos visitantes europeus à costa desencadeia em Tarzan o choque com a linguagem, a violência e as regras sociais do “mundo civilizado”, assim como a atração pelo sexo oposto.

    Burroughs constrói Tarzan como uma figura bipolar: fisicamente moldado pela selva e, ao mesmo tempo, descrito como herdeiro de uma linhagem europeia que “explicaria” a sua inteligência, autocontrolo e capacidade de liderança. A adoção do bebé Tarzan por Kala dá ao romance um núcleo afetivo (quase doméstico) que contrasta com a brutalidade do grupo liderado por Kerchak, onde o pertencimento precisa de ser conquistado. Quando surge Jane Porter, a primeira mulher branca que Tarzan vê, a narrativa desloca-se para o drama do reconhecimento: não apenas o encontro amoroso, mas a disputa entre os dois mundos — o da selva, onde Tarzan é soberano, e o da sociedade, onde é uma anomalia.

    O cerne do romance é a pergunta “o que faz de alguém humano?” – formulada, porém, em termos típicos do início do século XX. A história oscila entre a ideia de que o meio (neste caso, a selva) forma o corpo e os instintos, mas a hereditariedade determina o carácter, dando a Tarzan uma superioridade “natural” que o distingue quer dos símios quer dos outros grupos humanos (os negros) que encontra. Ao mesmo tempo, a sua autoaprendizagem da leitura é um símbolo: Tarzan apropria-se de uma língua escrita sem pertencer ainda ao mundo que ela representa – um detalhe inverosímil, mas eficaz como metáfora de desejo de identidade e de acesso ao conhecimento.

    Como produto da ficção pulp, o livro aposta num ritmo rápido, com episódios encadeados para manter a tensão: caçadas, confrontos físicos, raptos, fugas e reviravoltas sucessivas. A prosa é direta e funcional, interessada mais no movimento e na eficácia dramática do que na subtileza psicológica.

    Tarzan dos Macacos” traz um lastro ideológico evidente: a África como cenário exótico e indiferenciado, e uma hierarquia racial implícita na forma como o romance associa “civilização” e superioridade moral às personagens europeias. Lê-lo hoje obriga, tanto como à busca de entretenimento e aventura, a ter em conta o contexto em que o livro foi escrito: o imaginário imperial do seu tempo e as fantasias ocidentais de pureza, força e domínio do homem branco.

    Em resumo: “Tarzan dos Macacos” continua a ser uma leitura envolvente para quem procura aventura clássica, um super-herói e uma narrativa envolvente. Foi a fonte de um ícone que tem empolgado gerações, tanto na leitura, como no cinema, na banda desenhada e na cultura pop. Ao mesmo tempo, é uma leitura que aconselha um olhar crítico, consciente das representações coloniais e raciais que estruturam parcialmente o seu encanto. Recomenda-se, portanto, aos jovens de todas as idades que estejam dispostos a ler aventura com entusiasmo, mas também com distanciamento.

  • J. R. R. Tolkien é um premiado filósofo, escritor e professor universitário britânico, nascido na África do Sul em 1892 e falecido na Inglaterra em 1973, autor de obras consagradas, como “O Hobbit”, “O Senhor do Anéis” e “O Silmarillion”. É considerado o “pai da moderna literatura fantástica”.

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  • Camilo Castelo Branco foi um escritor, romancista, cronista, crítico, dramaturgo, historiador, poeta e tradutor português nascido na freguesia dos Mártires, em Lisboa, em 1825 e falecido em São Miguel de Seide, Vila Nova de Famalicão, em 1890. O seu romance mais importante é “Amor de Perdição”.

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  • Publicado no Japão em 1949, “Confissões de uma Máscara” é o romance que projetou internacionalmente Yukio Mishima. A obra, ao narrar a confissão de alguém que se sente diferente dos outros rapazes e que aprende a sobreviver socialmente através de uma “máscara”, é frequentemente considerada uma biografia literária do autor, também ele um rapaz diferente.

    Ler Mishima neste livro é entrar num laboratório de lucidez e desconforto: a escrita é elegante, mas a matéria é corrosiva. Entre a infância e a juventude, o narrador observa-se com uma frieza quase clínica, tentando conciliar desejo, vergonha e a exigência de “normalidade” num Japão atravessado pelo militarismo e, depois, pelo desmoronamento moral do pós-guerra mundial.

    O romance acompanha Kochan, desde as primeiras memórias de infância até à entrada na idade adulta, num percurso em que o protagonista percebe que a sua vida interior não coincide com o papel que a sociedade espera dele. Entre fantasias, autoanálise e episódios aparentemente banais, vai-se desenhando a necessidade de ocultar – e de encenar – para pertencer ao seu grupo social.

    A atração por figuras masculinas – com destaque para o colega de turma Omi – e a tentativa de construir um enredo amoroso “aceitável” com Sonoko, irmã de outro colega, tornam-se os eixos da tensão. Ao mesmo tempo, a Segunda Guerra Mundial e o ambiente de disciplina e idealização da virilidade funcionam como pano de fundo amplificador: a “máscara” não é um capricho, mas um mecanismo para a sobrevivência.

    Esta metáfora central não é apenas psicológica: é uma estratégia para conseguir viver num mundo que recompensa a conformidade. Mishima mostra como a identidade pode ser menos “descoberta” se não for construída sob pressão – uma performance treinada, afinada, o que se torna extenuante. A forma confessional reforça essa tensão: o narrador promete verdade, mas o que descreve é sobretudo as operações de disfarce.

    O despertar sexual surge ligado a imagens intensas – por vezes mesmo violentas – em que beleza e sofrimento se contaminam. A obra sugere que o desejo, quando é reprimido, procura saídas simbólicas: o olhar fixa-se no corpo masculino idealizado, mas também no imaginário da ferida, do martírio e do heroísmo. Daí a sensação de que a linguagem, por mais límpida, está sempre à beira do abismo.

    O Japão de entre guerras e a mobilização para a guerra atravessam o livro como um ideal de dureza física e de disciplina. Para um narrador que se sente frágil e “desajustado”, esse modelo não só é opressivo: torna-se sedutor. Mishima capta bem a ambivalência, ou seja, a atração pelo ideal que, ao mesmo tempo, o exclui – e faz do contexto histórico um espelho ampliado do conflito íntimo do personagem.

    A prosa é simultaneamente intelectual e sensorial: raciocina, descreve, volta atrás, corrige-se. O ritmo tende à repetição (o narrador revisita o mesmo nó emocional por ângulos sucessivos), o que pode soar monótono para alguns leitores – mas essa insistência é coerente com o próprio tema, pois a ‘máscara’ exige manutenção diária, e a consciência não encontra descanso. No entanto, a ironia dirigida tanto ao mundo como ao próprio narrador, impede o texto de cair num sentimentalismo fácil.

    Os pontos fortes deste romance são a agudeza psicológica e a honestidade desconfortável; a articulação rara entre erotismo, estética e ideais de masculinidade; o contexto histórico integrado sem parecer simplesmente “decorativo”; a capacidade de transformar autoanálise em tensão narrativa.

    Mas também há pontos fracos, pelo menos para alguns leitores: a introspeção contínua pode cansar quem gosta de encontrar ação; algumas passagens dependem de referências culturais ou visuais que podem exigir uma leitura muito atenta; o distanciamento analítico do narrador cria, por vezes, uma certa frieza emocional.

    Em conclusão: “Confissões de uma Máscara” é um romance formatado do avesso: em vez de celebrar a integração do sujeito no mundo, expõe o custo dessa integração, no que ela impõe de negação do que é mais íntimo da personagem. Combinando elegância literária e inquietação moral, Mishima deixa o leitor a olhar para a “máscara” não como a exceção, mas como a regra social – e é por isso mesmo que o livro permanece atual. É uma leitura que recomendo a quem aprecia ficção introspetiva, literatura do pós-guerra e narrativas que pensam a identidade como conflito, e não como resposta.